VERÃO AMAZÔNICO
Altas
temperaturas intensificam riscos de doenças tropicais
Médicos
e equipes de enfermagem enfrentam o desafio de identificar sinais precoces,
orientar comunidades e reduzir complicações de saúde
MARABÁ
O verão amazônico,
marcado por altas temperaturas, chuvas intensas e períodos de estiagem, cria
condições ideais para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças
tropicais. No sul e sudeste do Pará, especialistas alertam para o aumento de
casos de dengue, chikungunya, malária, leptospirose e febre Oropouche. “Esse
padrão climático favorece o incremento no número de casos, muitos deles podendo
evoluir para quadros graves e até óbitos”, afirma o infectologista Harbi
Othman, da Afya/Marabá.
As chuvas irregulares e o
acúmulo de água parada em recipientes ou pequenos lagos, formados naturalmente,
criam ambientes propícios para a reprodução de mosquitos como o Aedes aegypti e
o Anopheles, responsáveis pela transmissão de dengue, chikungunya e malária.
Para Othman, medidas simples como o descarte adequado do lixo, uso de
repelentes, telas de proteção e mosquiteiros são fundamentais, além da
identificação precoce dos pacientes.
A professora Edlainny
Araujo Ribeiro, microbiologista e docente da Afya/Redenção, destaca que as
equipes de enfermagem enfrentam desafios adicionais no cuidado aos pacientes.
“Muitas arboviroses apresentam sinais e sintomas semelhantes, o que dificulta o
diagnóstico clínico. Em alguns casos, é necessário recorrer a exames de
biologia molecular, ainda pouco disponíveis em municípios menores ou áreas
remotas”, explica. Ela cita a febre Mayaro como exemplo de doença endêmica da
Amazônia que permanece subdiagnosticada.
De acordo com a
Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), o Pará registrou 17 mil casos
prováveis de dengue em 2025, uma redução de cerca de 14% em relação ao mesmo
período de 2024, quando foram notificados 19,7 mil casos. Apesar da queda nos
registros, o número de óbitos aumentou: foram confirmadas 28 mortes em 2025, contra
11 no ano anterior. O dado reforça que, mesmo com menor incidência, a gravidade
da doença permanece elevada e exige atenção redobrada das autoridades e da
população.
Já os dados do Boletim
Epidemiológico Brasileiro mostram que as regiões Norte e Nordeste concentram as
maiores taxas de detecção de casos e óbitos por doenças tropicais
negligenciadas, cenário diretamente relacionado ao Índice Brasileiro de
Privação. Para Edlainny, isso reforça a necessidade de investimentos em
pesquisa, controle de vetores e enfrentamento dos determinantes sociais da
saúde.
Entre os desafios
práticos, a docente aponta a sobrecarga assistencial durante surtos,
dificuldades de acesso em áreas ribeirinhas, necessidade de educação dos
pacientes para adesão ao tratamento e vigilância epidemiológica integrada. “As
mudanças climáticas exigem que os enfermeiros atuem sob a perspectiva de Uma Só
Saúde, que considera a interconexão entre saúde ambiental, humana e animal”,
ressalta.
O controle da dengue
continua sendo um dos maiores desafios. Apesar da existência da vacina CYD-TDV,
licenciada em alguns países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda
cautela e screening pré-vacinal, já que o imunizante mostrou riscos em
indivíduos sem infecção prévia. “Enquanto não tivermos uma vacina altamente
segura e eficaz, o controle vetorial e as medidas comunitárias ainda são as
principais ferramentas”, reforça Edlainny.
Novas tecnologias já
estão sendo aplicadas na vigilância ambiental. Othman cita o uso de mosquitos
Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que impede o desenvolvimento
de vírus como dengue e chikungunya. Edlainny complementa que drones vêm sendo
utilizados para mapear áreas de difícil acesso e identificar criadouros,
otimizando ações de controle em regiões rurais e amazônicas.




















