sexta-feira, 6 de março de 2026

 

MÚSICA CLÁSSICA

Projeto transforma hospitais em palcos de cura

Iniciativa da Fundação Casa da Cultura proporciona melodias para preencher o vazio e a solidão em leitos hospitalares, quando a música ameniza essas dores

 

MARABÁ

Na última quinta-feira (5 de março), o Brasil celebrou o Dia Nacional da Música Clássica. A data, instituída por Decreto Federal em 2009, não foi escolhida ao acaso, é uma homenagem ao nascimento de Heitor Villa-Lobos, o maestro que apresentou a alma brasileira ao mundo em forma de partituras.

Em Marabá, a celebração vai além dos palcos e ganha corredores de hospitais e lares de acolhimento através do projeto “Música, Arte que Cura, da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM).

A iniciativa, que já completa um ano de vigência, rompe a rigidez do ambiente clínico. Músicos da Fundação visitam regularmente o Hospital Municipal (HMM), o Hospital Materno-Infantil (HMI) e o Lar São Vicente de Paulo, provando que a música clássica e instrumental é uma linguagem universal capaz de tocar as emoções mais profundas.

Para o violinista e instrutor da FCCM, Danilo Oliveira, o projeto é uma missão de humanidade. Ele, que iniciou sua trajetória musical aos 26 anos e hoje vive da arte, vê na música um remédio que ele próprio já utilizou.

“A música me tirou de momentos de ansiedade e problemas psicológicos. Ela tem essa missão de transformar vidas, assim como transformou a minha”, revela Danilo.

O músico explica que o repertório variado, que inclui instrumentos como violino e clarinete, busca oferecer conforto a quem enfrenta o isolamento do leito hospitalar.

“Às vezes o paciente se sente deprimido, excluído. A música ameniza essa dor, tanto física como emocional e espiritual. É também uma forma de incentivar e mostrar novos instrumentos para quem nunca teve esse contato”, pontua.

No Hospital Municipal de Marabá, o impacto é visível na rotina de quem cuida e de quem é cuidado. A enfermeira Alina Roberta Ferreira, que também é musicista, destaca que o ambiente hospitalar é naturalmente pesado e que a música atua como um “choque de vida” contra a tristeza do adoecimento.

“O paciente está longe de casa, da família, comendo uma comida diferente. O projeto é um alento. Alguns choram para liberar sentimentos, outros sorriem. A música tem um poder extremamente curativo”, afirma a enfermeira.

Alina ressalta que as melodias despertam lembranças positivas e aceleram a recuperação. “Isso traz sensação de conforto e ajuda muito na perspectiva da alta do nosso paciente. É um projeto fundamental que temos a graça de realizar junto à Casa da Cultura”, conclui a enfermeira.

O projeto “Música, Arte que Cura” vai ao Hospital Materno Infantil (HMI) toda terça-feira, e ao HMM na quarta-feira, com apresentações dos artistas em diferentes áreas do hospital. (Fabiana Alves/Ascom/PMM)


                                         Imagens: Paulo Sérgio Santos

Alina, além de enfermeira também é musicista: "As melodias despertam lembranças... e aceleram a recuperação' 

Instrutor Danilo Oliveira avalia que o projeto trata-se de "uma missão de humanidade"

Projeto está no HMI todas às terças feiras

Música oferece alento para quem enfrenta o isolamento do leito hospitalar 


                                                        

 DIA INTERNACIONAL

Mulheres que superam barreiras para assumir lideranças

Duas trajetórias femininas no Pará revelam que ciência e cuidado também são resistência, e que ocupar espaços de liderança é semear futuro

MARABÁ

A nefrologista pediátrica e professora da Afya/Abaetetuba, Cássia de Barros Lopes, e Ana Cristina Doria dos Santos, biomédica, pesquisadora e coordenadora da COPPEXII na Afya/Redenção, trilharam trajetórias distintas, mas convergentes em propósito. Suas histórias revelam como dedicação, ciência e resistência se entrelaçam para abrir caminhos e inspirar novas gerações de mulheres na Amazônia e no Brasil como um todo.

Cassia: o compromisso de cuidar 

Desde a infância, Cássia descobriu que cuidar não é apenas oferecer ajuda pontual, mas estar presente de forma contínua. Aos 10 anos, um episódio marcou sua percepção: ao participar de um trabalho escolar, convidou dona Maria, uma idosa em situação de vulnerabilidade, para passar o dia na escola. O vínculo não terminou ali. “Eu compreendi ainda que de forma intuitiva, pois ainda era uma criança, que cuidado não é um gesto isolado. Eu queria estar ali, eu queria estar presente”.

Esse olhar se aprofundou na medicina. Na pediatria, encontrou leveza e encantamento no contato com crianças. Na nefrologia pediátrica, mergulhou na complexidade da fisiologia, aprendendo a lidar com hipóteses e incertezas. “É de alta complexidade, não só pela fisiologia, mas pelas doenças que são extremamente agressivas e crônicas, que precisam de um médico com um olhar atento”.

Na coordenação do curso de Medicina em Abaetetuba, Cássia fortaleceu processos pedagógicos e criou projetos inovadores. O Viva Verde promoveu autocuidado e cuidado ambiental, enquanto o Humanar estabeleceu uma rede de mentoria entre estudantes. Sua liderança foi marcada pela defesa da saúde mental e pela valorização do exemplo: “Nós não podemos formar médicos que futuramente valorizem o autocuidado sem eles vivenciarem isso durante a formação”, avalia.

Ao deixar a coordenação e se dedicar à docência e aos atendimentos médicos, tomou uma decisão consciente: dedicar-se ao que considera seu maior impacto - estruturar o raciocínio clínico dos futuros médicos. “Eu acredito que o futuro da formação médica passa por organizar muito melhor o pensamento do estudante sobre incertezas. O meu trabalho, onde os meus olhos brilham, é formar médicos que pensem com estrutura, com fundamentos e que atuem com curiosidade ética”.

As barreiras da liderança feminina

Cássia reflete sobre os desafios de ser mulher em cargos de liderança. Ela reconhece que, historicamente, muitas mulheres precisaram demonstrar competência técnica e firmeza de decisão em ambientes de maior cobrança. No entanto, ressalta que hoje há avanços importantes: instituições têm desenvolvido políticas de apoio à maternidade, saúde mental e valorização da diversidade, criando condições mais favoráveis para que mulheres possam exercer plenamente seus papéis de liderança.

Sua mensagem é de encorajamento: “Não diminuam seus sonhos para caber em expectativas externas. O mundo precisa de mulheres inteiras, que liderem com coragem e sensibilidade”.

Ana Cristina Doria: ciência e resistência 

No coração da Bahia, em Salvador nasceu uma mulher que transformaria sua paixão pelo conhecimento em uma jornada de impacto e transformação. Criada no interior, na cidade de Catu, Ana Cristina Doria dos Santos, mulher preta, nordestina, cresceu enfrentando os desafios de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pelo patriarcado. Mas foi justamente nesses obstáculos que encontrou combustível para sua luta.

Graduada em Biomedicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, descobriu cedo sua paixão pela microbiologia. Em Belém, com o apoio do pai e do irmão, mergulhou nos estudos e conquistou o mestrado e o doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal do Pará.

Hoje, Ana Cristina é referência acadêmica e científica. Docente, pesquisadora, coordenadora de programas de pós-graduação e líder de grupo de pesquisa, ocupa espaços que historicamente foram negados às mulheres negras. Sua atuação vai além da sala de aula e dos laboratórios: ela é presença ativa em hospitais, comitê de ética e iniciativas de inovação científica.

Em novembro de 2025, sua trajetória recebeu um reconhecimento histórico: a Comenda Maria Aguiar, concedida pela Secretaria de Estado de Igualdade Racial e Direitos Humanos do Pará, em parceria com o Conselho Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Essa distinção celebra mulheres negras que se destacam em seus territórios e áreas de atuação, promovendo igualdade racial, justiça social e valorização das identidades afro-brasileiras e amazônidas.

Ana Cristina mostra que cada conquista feminina é um ato político: “Cada diploma é uma vitória coletiva, e cada passo dado é um convite para que outras mulheres também avancem”. Sua trajetória prova que ciência e resistência caminham juntas, e que ocupar espaços de liderança é abrir caminhos para outras mulheres negras, nordestinas e amazônidas.

Duas histórias, um mesmo propósito 

Cassia e Ana Cristina, cada uma em sua área, revelam que a medicina e a ciência não se sustentam apenas na técnica, mas também na coragem de enfrentar estruturas desiguais e na capacidade de transformar vidas. Ambas nos lembram que formar médicos e cientistas é, antes de tudo, formar pessoas capazes de cuidar, resistir e inspirar.

No Dia Internacional da Mulher, suas trajetórias se encontram como símbolos de força e transformação. Elas mostram que ocupar espaços de liderança não é apenas uma conquista individual, mas um convite coletivo para que outras mulheres também avancem.

De Abaetetuba e Redenção para o Pará e Amazônia, essas mulheres provam que ciência e cuidado são também resistência. Suas histórias nos lembram que ocupar espaços é plantar futuro. (Elizabeth Ribeir/Ascom/Facimpa)

                                        Imagens: Ascom/Facimpa

Cássia de Barros: "Não diminuam seus sonhos... O mundo precisa de mulheres inteiras"

Ana Cristina superou desafios e hoje tem mestrado e doutorado em Biomedicina e Biotecnologia