DIA INTERNACIONAL
Mulheres
que superam barreiras para assumir lideranças
Duas
trajetórias femininas no Pará revelam que ciência e cuidado também são
resistência, e que ocupar espaços de liderança é semear futuro
MARABÁ
A nefrologista pediátrica
e professora da Afya/Abaetetuba, Cássia de Barros Lopes, e Ana Cristina Doria
dos Santos, biomédica, pesquisadora e coordenadora da COPPEXII na Afya/Redenção,
trilharam trajetórias distintas, mas convergentes em propósito. Suas histórias
revelam como dedicação, ciência e resistência se entrelaçam para abrir caminhos
e inspirar novas gerações de mulheres na Amazônia e no Brasil como um todo.
Cassia:
o compromisso de cuidar
Desde a infância, Cássia
descobriu que cuidar não é apenas oferecer ajuda pontual, mas estar presente de
forma contínua. Aos 10 anos, um episódio marcou sua percepção: ao participar de
um trabalho escolar, convidou dona Maria, uma idosa em situação de
vulnerabilidade, para passar o dia na escola. O vínculo não terminou ali. “Eu
compreendi ainda que de forma intuitiva, pois ainda era uma criança, que
cuidado não é um gesto isolado. Eu queria estar ali, eu queria estar presente”.
Esse olhar se aprofundou
na medicina. Na pediatria, encontrou leveza e encantamento no contato com
crianças. Na nefrologia pediátrica, mergulhou na complexidade da fisiologia,
aprendendo a lidar com hipóteses e incertezas. “É de alta complexidade, não só
pela fisiologia, mas pelas doenças que são extremamente agressivas e crônicas,
que precisam de um médico com um olhar atento”.
Na coordenação do curso
de Medicina em Abaetetuba, Cássia fortaleceu processos pedagógicos e criou
projetos inovadores. O Viva Verde promoveu autocuidado e cuidado ambiental,
enquanto o Humanar estabeleceu uma rede de mentoria entre estudantes. Sua
liderança foi marcada pela defesa da saúde mental e pela valorização do
exemplo: “Nós não podemos formar médicos que futuramente valorizem o
autocuidado sem eles vivenciarem isso durante a formação”, avalia.
Ao deixar a coordenação e
se dedicar à docência e aos atendimentos médicos, tomou uma decisão consciente:
dedicar-se ao que considera seu maior impacto - estruturar o raciocínio clínico
dos futuros médicos. “Eu acredito que o futuro da formação médica passa por
organizar muito melhor o pensamento do estudante sobre incertezas. O meu
trabalho, onde os meus olhos brilham, é formar médicos que pensem com
estrutura, com fundamentos e que atuem com curiosidade ética”.
As
barreiras da liderança feminina
Cássia reflete sobre os
desafios de ser mulher em cargos de liderança. Ela reconhece que,
historicamente, muitas mulheres precisaram demonstrar competência técnica e
firmeza de decisão em ambientes de maior cobrança. No entanto, ressalta que
hoje há avanços importantes: instituições têm desenvolvido políticas de apoio à
maternidade, saúde mental e valorização da diversidade, criando condições mais
favoráveis para que mulheres possam exercer plenamente seus papéis de
liderança.
Sua mensagem é de
encorajamento: “Não diminuam seus sonhos para caber em expectativas externas. O
mundo precisa de mulheres inteiras, que liderem com coragem e sensibilidade”.
Ana
Cristina Doria: ciência e resistência
No coração da Bahia, em
Salvador nasceu uma mulher que transformaria sua paixão pelo conhecimento em
uma jornada de impacto e transformação. Criada no interior, na cidade de Catu,
Ana Cristina Doria dos Santos, mulher preta, nordestina, cresceu enfrentando os
desafios de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pelo patriarcado.
Mas foi justamente nesses obstáculos que encontrou combustível para sua luta.
Graduada em Biomedicina
pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, descobriu cedo sua paixão pela
microbiologia. Em Belém, com o apoio do pai e do irmão, mergulhou nos estudos e
conquistou o mestrado e o doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal
do Pará.
Hoje, Ana Cristina é
referência acadêmica e científica. Docente, pesquisadora, coordenadora de
programas de pós-graduação e líder de grupo de pesquisa, ocupa espaços que
historicamente foram negados às mulheres negras. Sua atuação vai além da sala
de aula e dos laboratórios: ela é presença ativa em hospitais, comitê de ética
e iniciativas de inovação científica.
Em novembro de 2025, sua
trajetória recebeu um reconhecimento histórico: a Comenda Maria Aguiar,
concedida pela Secretaria de Estado de Igualdade Racial e Direitos Humanos do
Pará, em parceria com o Conselho Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial. Essa distinção celebra mulheres negras que se destacam em seus
territórios e áreas de atuação, promovendo igualdade racial, justiça social e
valorização das identidades afro-brasileiras e amazônidas.
Ana Cristina mostra que
cada conquista feminina é um ato político: “Cada diploma é uma vitória
coletiva, e cada passo dado é um convite para que outras mulheres também
avancem”. Sua trajetória prova que ciência e resistência caminham juntas, e que
ocupar espaços de liderança é abrir caminhos para outras mulheres negras,
nordestinas e amazônidas.
Duas
histórias, um mesmo propósito
Cassia e Ana Cristina,
cada uma em sua área, revelam que a medicina e a ciência não se sustentam
apenas na técnica, mas também na coragem de enfrentar estruturas desiguais e na
capacidade de transformar vidas. Ambas nos lembram que formar médicos e
cientistas é, antes de tudo, formar pessoas capazes de cuidar, resistir e
inspirar.
No Dia Internacional da
Mulher, suas trajetórias se encontram como símbolos de força e transformação.
Elas mostram que ocupar espaços de liderança não é apenas uma conquista
individual, mas um convite coletivo para que outras mulheres também avancem.

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