quinta-feira, 23 de julho de 2026

 VERÃO AMAZÔNICO

Altas temperaturas intensificam riscos de doenças tropicais

Médicos e equipes de enfermagem enfrentam o desafio de identificar sinais precoces, orientar comunidades e reduzir complicações de saúde

MARABÁ

O verão amazônico, marcado por altas temperaturas, chuvas intensas e períodos de estiagem, cria condições ideais para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças tropicais. No sul e sudeste do Pará, especialistas alertam para o aumento de casos de dengue, chikungunya, malária, leptospirose e febre Oropouche. “Esse padrão climático favorece o incremento no número de casos, muitos deles podendo evoluir para quadros graves e até óbitos”, afirma o infectologista Harbi Othman, da Afya/Marabá.

As chuvas irregulares e o acúmulo de água parada em recipientes ou pequenos lagos, formados naturalmente, criam ambientes propícios para a reprodução de mosquitos como o Aedes aegypti e o Anopheles, responsáveis pela transmissão de dengue, chikungunya e malária. Para Othman, medidas simples como o descarte adequado do lixo, uso de repelentes, telas de proteção e mosquiteiros são fundamentais, além da identificação precoce dos pacientes.

A professora Edlainny Araujo Ribeiro, microbiologista e docente da Afya/Redenção, destaca que as equipes de enfermagem enfrentam desafios adicionais no cuidado aos pacientes. “Muitas arboviroses apresentam sinais e sintomas semelhantes, o que dificulta o diagnóstico clínico. Em alguns casos, é necessário recorrer a exames de biologia molecular, ainda pouco disponíveis em municípios menores ou áreas remotas”, explica. Ela cita a febre Mayaro como exemplo de doença endêmica da Amazônia que permanece subdiagnosticada.

De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), o Pará registrou 17 mil casos prováveis de dengue em 2025, uma redução de cerca de 14% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram notificados 19,7 mil casos. Apesar da queda nos registros, o número de óbitos aumentou: foram confirmadas 28 mortes em 2025, contra 11 no ano anterior. O dado reforça que, mesmo com menor incidência, a gravidade da doença permanece elevada e exige atenção redobrada das autoridades e da população.

Já os dados do Boletim Epidemiológico Brasileiro mostram que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de detecção de casos e óbitos por doenças tropicais negligenciadas, cenário diretamente relacionado ao Índice Brasileiro de Privação. Para Edlainny, isso reforça a necessidade de investimentos em pesquisa, controle de vetores e enfrentamento dos determinantes sociais da saúde.

Entre os desafios práticos, a docente aponta a sobrecarga assistencial durante surtos, dificuldades de acesso em áreas ribeirinhas, necessidade de educação dos pacientes para adesão ao tratamento e vigilância epidemiológica integrada. “As mudanças climáticas exigem que os enfermeiros atuem sob a perspectiva de Uma Só Saúde, que considera a interconexão entre saúde ambiental, humana e animal”, ressalta.

O controle da dengue continua sendo um dos maiores desafios. Apesar da existência da vacina CYD-TDV, licenciada em alguns países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda cautela e screening pré-vacinal, já que o imunizante mostrou riscos em indivíduos sem infecção prévia. “Enquanto não tivermos uma vacina altamente segura e eficaz, o controle vetorial e as medidas comunitárias ainda são as principais ferramentas”, reforça Edlainny.

Novas tecnologias já estão sendo aplicadas na vigilância ambiental. Othman cita o uso de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que impede o desenvolvimento de vírus como dengue e chikungunya. Edlainny complementa que drones vêm sendo utilizados para mapear áreas de difícil acesso e identificar criadouros, otimizando ações de controle em regiões rurais e amazônicas.

Entretanto, a melhor forma de evitar a proliferação do mosquito transmissor é a conscientização da população. Mutirões de limpeza, inspeções semanais nos domicílios, caixas d’água tampadas e eliminação de recipientes que acumulam água parada continuam sendo estratégias essenciais. A educação em saúde promovida pelas equipes de enfermagem é decisiva para reduzir complicações e mortalidade. “Comunidades mais informadas e engajadas apresentam melhores indicadores de prevenção e controle, reduzindo hospitalizações e formas graves da doença”, conclui Edlainny. (Elizabeth Ribeiro/Ascom/Facimpa)

         
                                           Imagem: Ilustração

Acúmulo de lixo e água empoçada são "prato cheio" para a proliferação de transmissores de doenças tropicais


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